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“Bem vindo/a, ou É proibida a entrada dos estranhos”.

«Добро пожаловать, или посторонним вход воспрещен» ([dabró pajálovat’, ili Pastarónim vkhod vaspreschión] – “Bem vindo/a, ou É proibida a entrada dos estranhos”) é um filme clássico soviético que, a grosso modo, trata do tema “deixando o outro feliz sem perguntar o que é felicidade para ele”. O filme, além de ser simplesmente engraçado, levanta várias questões profundas filosóficas que não cabem a essa carta. Conta uma história de um acampamento onde as crianças tiveram que fazer um regime que para adultos parecia perfeito para crianças, mas era nem um pouco perfeito para as próprias crianças. Ofilme em si nada tem a ver com o tema de androcentrismo. Mas traz um fato linguístico no seu nome: em russo, “bem vindo/a” não tem gênero específico. Como também não é atrelada ao gênero a palavra “люди” [“liúdi”] – “homens” no sentido “humanidade”.

No Brasil, a língua portuguesa traz “homem” como representante da humanidade e levanta, então, a questão de reconhecimento da existência e do papel da mulher na nossa sociedade. E foi este o tema do 6º meetup de escritores de conteúdo voltado a experiências – UX Writers Brasil. Androcentrismo como algo enraizado e que precisa ser superado, começando pelos nossos textos, é uma boa prática a ser seguida. Mas será que sempre é?

A evolução da sociedade e da sua cultura é um processo contínuo. E pasmem: a maior parte de conceitos gerais sobre a vida entram na moda e saem da moda. Uns com frequência maior. Outros demoram séculos para serem trocados. Uma hora comer ovo é tudo de bom, na outra, o ovo vira o maior ofensor da saúde.

Lembremos de culturas antigas, onde mulher era sagrada. Outro dia ouvi numa conversa da rua um estudante contando para um outro que para os Etruscos o papel da mulher era nada oprimido. E os etruscos deram origem para cultura Romana, que, por sua vez, deu origem à cultura latina, que por sua vez, fez o seu papel no Brasil. Não estudei a cultura dos etruscos para confirmar ou não o dito, mas pelo que o Google deu como resposta, é verdade mesmo.

Poucos não estariam notando que a globalização como conceito hoje já não fica “bombando” tanto. Isto é porque, por mais bela que seja a ideia, na sua realização prática a globalização significa, sim, o desaparecimento das peculiaridades locais em prol da “maioria global”. E deparamos: normalmente, queremos preservar o nosso jeito de ser, pensar e viver. Começamos a caminhar para “desglobalização”. Mesmo numa ciência dura, como a física, conceitos modernos, como o big-bang, podem mudar. O universo não seria apenas uma expansão eterna e acelerada, mas seria uma troca eterna de fases de contrações e expansões. Como o nosso coração bate, expandindo e retraindo.

Juntei aqui os exemplos para ilustrar: nenhuma das ideias fica para sempre. A mulher nem sempre e nem em todos os lugares foi e é esquecida/oprimida. Nem cada mulher no Brasil e no mundo hoje quer e/ou está pronta para fazer papel maior do que apenas ser uma mulher. Por conta disto, na hora de pensarmos sobre Androcentrismo na linguagem e a “revolução de empoderamento da mulher”, não devemos maximizar essa revolução como causa final.

Aqueles que pensam na experiência de usuário e se consideram “revolucionários”, que pretendem via o produto do seu trabalho ensinar os seus públicos a “notarem” mulheres nos papeis fora de “ser apenas mulher”, têm boas intenções. Eu gosto disto. Mas diante do auge da ideia, ainda temos que pensar no propósito daquilo que estamos criando. Há situações nas quais “bem-vindo” ou (“bem-vindx”?) como cumprimento, independente de gênero, é melhor do que foco na distinção do gênero em nome de empoderamento da mulher.

Assusta-me quando apenas uma breve visita num site (sem deixar nenhum dos meus dados pessoais lá) tem como consequência um email bem-humorado, mas intrusivo: “olá, é tão bom te ver como interessada! Mas por que é que você não fechou o negócio conosco?”. “Olá, seja bem-vinda” significa para mim que a empresa me “viu”, identificou como mulher, mas será que irá aplicar o seu estereótipo sobre uma mulher e suas necessidades ao meu caso? E se sim, vou ficar feliz com esta visibilidade e com este estereótipo?

Embora o tema em sí é muito relevante, acho importante sempre lembrarmos que o primeiro e o último a dizer o quanto ele ou ela quer ser visível, acolhido/a ou preservar as suas tradições e modus operandi deve ser aquela pessoa que for usar o produto do nosso trabalho para atender as suas necessidades. Querer vestir a camisa de “libertadores” e trazer “felicidade maior a todos” pode parecer nobre, mas antes de sair quebrando a cabeça para soluções (nem sempre fáceis) de como fazer referência correta ao gênero, prefiro saber se para a maioria das mulheres que compõem o público específico para qual eu esteja criando este conteúdo específico a distinção de sexo naquele momento específico de contato com a empresa é de valor mesmo.

E não esqueçamos que diversidade tem que ser respeitada em cada representação sua, inclusive, quando alguém quiser preservar os seus valores “patriarcais” que para nós possam parecer antigos e superados.

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